O Oscar está mudando. Há anos a premiação não apresentava nenhuma novidade, mas deixava evidente que o lance já não era mais o épico, mas sim ser bom realmente e isso aconteceu em 2009, quando um tal de Danny Boyle venceu por "Quem quer ser um milionário". Juro que nunca tinha prestado atenção nele, até que a história do indiano que participcaiu do show do milhão dos sete véus caiu nas graças do público. Aí que eu vi que realmente é possível contar uma história já batida, de maneira original. Agora em 2011, o cara volta à tona com um filme atípico, apoiado na edição (e que não poupa o expectador) contando novamente uma história deveras conhecida, mas com uma ótica extremamente autêntica, o que falta hoje em dia no cinema, e sem parecer forçado. Algo cansativo, torna-se uma experiência memorável nas mãos de Boyle. #fato


127 Horas é o último dos indicados ao Oscar de Melhor Filme que faltava estrear no país e conta a história real do famoso alpinista Aron Ralston (adaptada do livro “Between a Rock and a Hard Place”), que tem que salvar a própria vida após ficar preso por um pedregulho cai que e esmaga o seu braço, num cânion isolado no Parque Nacional de Utah. Nos cinco dias seguintes, Ralston tem que ganhar coragem para sobreviver com os meios disponíveis, ao mesmo tempo em que é visitado pelas lembranças de amigos e familiares.

Porra, como eu gosto de filmes que nos fazem pensar e admito que 127 horas me deixou arrepiado. Acompanhar os devaneios por demais dolorosos de Aron no filme foi uma experiência interessante e mais que isso foi ver que nossos próprios problemas que pensamos ser tão complicados não chegam nem perdo de como o dele foi. Passamos nossas vidas pensando no que poderiamos ter feito diferente e lamentando nossa luta na rotina chata de ir a escola, acordar cedo, trabalhar, e etc, mas sem pensar que caralhos podem acontecer de uma hora pra outra e que transformariam esses pequenos problemas em absolutamente nada, ao nos deparamos com uma situação-limite como foi a do alpinista.

Talvez o maior defeito do ser humano seja viver a vida sem afirmar os detalhes dela a todo custo e lamentar o que se fez de errado no passado quando é tarde demais. Aron lamentou não ter atendido o telefone quando sua mãe ligou, pensou sobre algum dos erros que cometeu quando já não tinha mais esperanças de ser resgatado e viu a importância das pequenas coisas que passam desapercebidas no dia a dia. Você, leitor, por algum instante já parou pra pensar que talvez, o momento que está passando agora, possa ser o último? Que o destino talvez não te dê mais uma chance de viver novamente um momento que passou? Que viver a vida a todo custo não seja uma tarefa tão árdua assim e que essa talvez seja a sua última chance consertar erros passados e reviver momentos, antes que seja tarde demais? Todos nós passamos grande parte de nossas vidas pensando no "Se..."... E "Se" ele não tivesse esquecido o canivete... e "Se" ele tivesse avisado onde ia... e "Se" ele tivesse dito que amava as pessoas ao seu redor...

Todos temos pedras no nosso caminho e pro cara foi muito mais difícil superar seu obstáculo. Quem de nós teria coragem de fazer o que ele fez? Em 127 horas, Danny Boyle contou a história de um homem só, que teve seu instinto de sobrevicência levado às últimas consequências quando, para se livrar da enrascada em que se meteu, teve que cortar o próprio braço.  “Náufrago” e “Enterrado Vivo" já contaram histórias parecidas, e a primeira vista a imagem que temos é de um filme não tão original assim, mas o ritmo acelerado e emocionante que o diretor utilizou fez toda a diferença e deixa o espectador o tempo todo agarrado à tela. Sério, diferentemente dos dois que mencionei ali em cima a montagem de 127 Horas é muito dinâmica, enquanto os flashbacks apresentam um pouco do personagem a fotografia é arrebatadora e cumpre sua função de mostrar um ambiente claustrifóbico e as alucinações vividas pelo personagem, com muita energia num tom leve e fugaz externando uma série de emoções, sem nunca deixar de convencer o público de que realmente o cara está passando por um perrengue daquelas. As tomadas de dentro da garrafa pra termos uma noção de que a água está acabando e a estética publicitária na hora em que ele está com sede e lembra do Gatorade que esqueceu no carro também deram um tom assaz diferente na película.


Mas de que adiantaria tudo isso se o protagonista nos deixasse na mão? Aqui James Franco teve muito carisma e conseguiu colocar o espectador a seu favor segurando quase todo filme sozinho externando as fantasias e delírios de um homem forte, sensível e só (ao contrário de Ryan Reynolds no citado suspense de Rodrigo Cortés que não teve nem um pouco do carisma que Franco teve). O que eu achei mais legal na atuação de Franco foi a maneira que ele conseguiu mostrar a paixão pela vida e a energia que o personagem têm, ou se preferirem a vontade de viver dele. Uma das melhores atuações do ano, mas não sei se levaria o Oscar...  talvez não, mas aí vale a divagação. "Quem Quer Ser Um Milionário", venceu oito das dez indicações ao Oscar que teve mas esse ano é certo que o diretor não repita o mesmo sucesso mediante às inúmeras ótimas opções em todas as categorias. O filme é bom, cumpre e vai além o que propõe, foi contado de uma maneira formidável, mas acredito que seja com indicação à “melhor música” por “If I Rise”, escrita pela Dido e composta por A.R.Rahman que ele tenha suas chances de vitória.

Histórias de sobreviventes já eram blockbusters ou bestsellers e continuam presentes, mas tudo vai da maneira que as contam e Danny Boyle conseguiu fazer com que 127 horas não seja apenas mais um filme de superação com imagens e frases de efeito ou "aquele filme em que o cara corta o braço" mas sim uma obra soberba com intensidade que vai prender o espectador do início ao fim. É maravilhoso.

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